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TEXTOS
 
 

LAILSON NO HQ MIX 2009

 

Os textos de apresentação do livro e da exposição foram escritos por Dona Madalena Arraes - presidente do Instituto Miguel Arraes - e Eduardo Campos, governador de Pernambuco

 

   Todo o tempo em que estivemos juntos, aprendi com Miguel a capacidade de nunca perder o bom humor mesmo nos momentos de maior tensão psicológica. E essa tensão era uma realidade permanente para quem, como nós, vivia um processo político controvertido, dentro de um cenário particularmente dramático da história universal.

   E que, no plano mais amplo da consciência democrática, nos desafiava a enfrentar ameaças constantes à segurança pessoal de cada brasileiro, ao controle nacional do desenvolvimento econômico e, sobretudo, ao objetivo de garantir às forças populares o benefício efetivo das conquistas sociais.

   Criamos, para alcançar paz de espírito, o hábito simples de toda manhã, na leitura obrigatória dos jornais, dar atenção especial às charges publicadas em cada edição. Era a forma que encontrávamos de ver o mundo pelo lado mais leve, nem por isso menos dramático.

   E nos divertia a ironia cruel com que elas atacavam os governantes desprovidos de sentimento social e as formas desumanas com que os poderosos da economia, mais cruéis ainda, tratavam as populações carentes daqui e ao redor do mundo.

   Na nossa volta do exílio, começamos a ser atraídos pelo trabalho do chargista Lailson que desenvolveu na imprensa pernambucana quase um registro diário das ações de Miguel Arraes. E nisso o artista envolvia tanto a personalidade política do grande líder pernambucano como as suas qualidades de administrador, assinalando o seu papel como parlamentar e como governador.

   E, principalmente, destacava-o como personagem marcante da cena política nacional, dono de uma mensagem que inovava todo o pensamento brasileiro na luta pela reafirmação da Democracia no País, buscando, principalmente, a inclusão dos deserdados no processo de criação da riqueza nacional e o fortalecimento do papel brasileiro no âmbito do poder internacional.

   É isso que justifica a decisão que tomamos de usar a obra de Lailson, na forma deste livro, de um filme e de uma exposição iconográfica e documental, como suporte para a inauguração do Instituto Miguel Arraes.

   Nos diálogos com Lailson, aprendemos que a charge permite ao político “tomar o pulso” da situação de maneira mais suave, pois é através da análise crítica do chargista, que ele pode conhecer o sentimento das ruas expresso através do humor.

   As charges aqui expostas foram feitas como um produto jornalístico diário. Refletem a opinião do artista no momento em que foram feitas, expressando a sua objetividade, criatividade e sinceridade em relação a elas. Foram feitas para serem interpretadas pelos leitores, único alvo do artista.

   E apresentadas agora em conjunto permitem uma visão ampla dos fatos.

   Nesse conjunto, temos uma noção de como a charge funciona. Este poderoso e ferino instrumento de comunicação, que surgiu na imprensa no século XVIII e se popularizou no século XIX, pode ser definido como a interpretação gráfica, pelo viés humorístico, de um fato real, geralmente político.

   No Brasil, teve importante participação em todos os momentos históricos das lutas populares: Abolição, República, Revolução de 30, movimento de redemocratização pós-45, período JK, golpe de 64, Anistia, Diretas Já e Constituinte. E segue interpretando criticamente todas as nuances do Brasil que estamos construindo.

A charge é uma coluna de opinião assinada. Nela a figura pública é interpretada no momento em que desempenha suas ações, ficando registrada jornalisticamente, sem o beneplácito de uma leitura “a posteriori”.

   Ela utiliza a caricatura para representar seus personagens, significando a interpretação humorística da figura humana, através do realce das suas características físicas ou comportamentais.

   Lembro aqui uma historinha exemplar registrada pelo folclore político pernambucano, sempre relembrada com satisfação por Miguel. Nela se conta o episódio da visita de um senador do Estado à redação de um dos jornais recifenses.

   O senador dirige-se à sala do diretor de redação já com a arma da indignação em punho.

   “Não acredito, vocês apoiando a oposição!”
  “De maneira alguma, senador”, responde o jornalista. “Veja esta matéria aqui na primeira página, este editorial e esta matéria interna...”
   Aí o senador apontou para a charge do dia e disse: “É. Mas esse quadradinho aqui desfaz tudo isso que vocês fizeram aí”.

   Miguel sabia dessa verdade.

   E por isso, sendo sempre verdadeiro, não temia o ácido dos chargistas. Nem a arte, mesmo desfavorável, de artistas verdadeiros como Lailson.

   Antes, aprendia com eles.

Madalena Arraes
Instituto Miguel Arraes

 

 

Não tenho dúvidas de que nenhum jornalista do traço entendeu e cobriu melhor o ambiente político e social pernambucano, da resistência ao regime militar até os nossos dias, do que Lailson.

Este livro, que homenageia Miguel Arraes, é um retrato vivo daquele período, um largo e detalhado painel de tudo o que de mais importante aconteceu.

Desde muito jovem, acompanhando Dr. Arraes, me acostumei a vê-lo cotidianamente retratado (vá lá, caricaturado) pela mão habilidosa de Lailson. A charge, publicada na página de Opinião do Diário de Pernambuco, era como uma síntese das notícias do dia e informava como o povo via o governo e via o seu governador.

Se um quadro pinta mil palavras, uma charge de Lailson, quase sem palavras, retrata a complexa história desta importante parcela do Brasil chamada Pernambuco.

Nos desenhos de Lailson há crônica política, história, cultura, tudo reduzido à sua essência e devidamente enquadrado na diminuta dimensão do espaço disponível para as charges.

Claro, Lailson envolvia tudo isso no refinadíssimo humor que fez dele referência nacional e quase uma unanimidade em nosso estado.

De minha parte, confesso preferência pelas caricaturas de Dr. Arraes. Em poucos traços, estão ali bem definidos seu sorriso largo, seu olhar atento de sertanejo e, o que é mais importante, sua presença marcante na vida pernambucana.

Este livro marca o nascimento do Instituto Miguel Arraes, onde a vida e a obra política e humana do ex-governador serão justamente reverenciadas. É uma peça que nenhum pernambucano que goste de política, e queira entender - com inteligência e humor - a política do nosso estado, pode deixar de ter.


EDUARDO CAMPOS
Governador de Pernambuco

 
 
 
   

 


 

 
 

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