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Todo o tempo
em que estivemos juntos, aprendi com Miguel a capacidade de
nunca perder o bom humor mesmo nos momentos de maior tensão
psicológica. E essa tensão era uma realidade permanente para
quem, como nós, vivia um processo político controvertido,
dentro de um cenário particularmente dramático da história
universal.
E que, no plano mais amplo da consciência democrática, nos
desafiava a enfrentar ameaças constantes à segurança pessoal
de cada brasileiro, ao controle nacional do desenvolvimento
econômico e, sobretudo, ao objetivo de garantir às forças
populares o benefício efetivo das conquistas sociais.
Criamos, para alcançar paz de espírito, o hábito simples de toda
manhã, na leitura obrigatória dos jornais, dar atenção
especial às charges publicadas em cada edição. Era a forma
que encontrávamos de ver o mundo pelo lado mais leve, nem
por isso menos dramático.
E nos divertia a ironia cruel com que elas atacavam os governantes
desprovidos de sentimento social e as formas desumanas com
que os poderosos da economia, mais cruéis ainda, tratavam as
populações carentes daqui e ao redor do mundo.
Na nossa volta do exílio, começamos a ser atraídos pelo trabalho do
chargista Lailson que desenvolveu na imprensa pernambucana
quase um registro diário das ações de Miguel Arraes. E nisso
o artista envolvia tanto a personalidade política do grande
líder pernambucano como as suas qualidades de administrador,
assinalando o seu papel como parlamentar e como governador.
E, principalmente, destacava-o como personagem marcante da cena
política nacional, dono de uma mensagem que inovava todo o
pensamento brasileiro na luta pela reafirmação da Democracia
no País, buscando, principalmente, a inclusão dos deserdados
no processo de criação da riqueza nacional e o
fortalecimento do papel brasileiro no âmbito do poder
internacional.
É isso que justifica a decisão que tomamos de usar a obra de
Lailson, na forma deste livro, de um filme e de uma
exposição iconográfica e documental, como suporte para a
inauguração do Instituto Miguel Arraes.
Nos diálogos com Lailson, aprendemos que a charge permite ao
político “tomar o pulso” da situação de maneira mais suave,
pois é através da análise crítica do chargista, que ele pode
conhecer o sentimento das ruas expresso através do humor.
As charges aqui expostas foram feitas como um produto jornalístico
diário. Refletem a opinião do artista no momento em que
foram feitas, expressando a sua objetividade, criatividade e
sinceridade em relação a elas. Foram feitas para serem
interpretadas pelos leitores, único alvo do artista.
E apresentadas agora em conjunto permitem uma visão ampla dos
fatos.
Nesse conjunto, temos uma noção de como a charge funciona. Este
poderoso e ferino instrumento de comunicação, que surgiu na
imprensa no século XVIII e se popularizou no século XIX,
pode ser definido como a interpretação gráfica, pelo viés
humorístico, de um fato real, geralmente político.
No Brasil, teve importante participação em todos os momentos
históricos das lutas populares: Abolição, República,
Revolução de 30, movimento de redemocratização pós-45,
período JK, golpe de 64, Anistia, Diretas Já e Constituinte.
E segue interpretando criticamente todas as nuances do
Brasil que estamos construindo.
A charge é uma coluna de opinião assinada. Nela a figura
pública é interpretada no momento em que desempenha suas
ações, ficando registrada jornalisticamente, sem o
beneplácito de uma leitura “a posteriori”.
Ela utiliza a caricatura para representar seus personagens,
significando a interpretação humorística da figura humana,
através do realce das suas características físicas ou
comportamentais.
Lembro aqui uma historinha exemplar registrada pelo folclore
político pernambucano, sempre relembrada com satisfação por
Miguel. Nela se conta o episódio da visita de um senador do
Estado à redação de um dos jornais recifenses.
O senador dirige-se à sala do diretor de redação já com a arma da
indignação em punho.
“Não acredito, vocês apoiando a oposição!”
“De maneira alguma, senador”, responde o jornalista. “Veja esta matéria
aqui na primeira página, este editorial e esta matéria
interna...”
Aí o senador apontou para a charge do dia e disse: “É. Mas esse
quadradinho aqui desfaz tudo isso que vocês fizeram aí”.
Miguel sabia dessa verdade.
E por isso, sendo sempre verdadeiro, não temia o ácido dos
chargistas. Nem a arte, mesmo desfavorável, de artistas
verdadeiros como Lailson.
Antes, aprendia com eles.
Madalena Arraes
Instituto Miguel Arraes |
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Não tenho dúvidas
de que nenhum jornalista do traço entendeu e cobriu
melhor o ambiente político e social pernambucano, da
resistência ao regime militar até os nossos dias, do
que Lailson.
Este livro, que homenageia Miguel Arraes, é um
retrato vivo daquele período, um largo e detalhado
painel de tudo o que de mais importante aconteceu.
Desde muito jovem, acompanhando Dr. Arraes, me
acostumei a vê-lo cotidianamente retratado (vá lá,
caricaturado) pela mão habilidosa de Lailson. A
charge, publicada na página de Opinião do Diário de
Pernambuco, era como uma síntese das notícias do dia
e informava como o povo via o governo e via o seu
governador.
Se um quadro pinta mil palavras, uma charge de
Lailson, quase sem palavras, retrata a complexa
história desta importante parcela do Brasil chamada
Pernambuco.
Nos desenhos de Lailson há crônica política,
história, cultura, tudo reduzido à sua essência e
devidamente enquadrado na diminuta dimensão do
espaço disponível para as charges.
Claro, Lailson envolvia tudo isso no refinadíssimo
humor que fez dele referência nacional e quase uma
unanimidade em nosso estado.
De minha parte, confesso preferência pelas
caricaturas de Dr. Arraes. Em poucos traços, estão
ali bem definidos seu sorriso largo, seu olhar
atento de sertanejo e, o que é mais importante, sua
presença marcante na vida pernambucana.
Este livro marca o nascimento do Instituto Miguel
Arraes, onde a vida e a obra política e humana do
ex-governador serão justamente reverenciadas. É uma
peça que nenhum pernambucano que goste de política,
e queira entender - com inteligência e humor - a
política do nosso estado, pode deixar de ter.
EDUARDO CAMPOS
Governador de Pernambuco |
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